Tao Te Ching
道德經
Nota introdutória
O Tao Te Ching (Daodejing, 道德經) — o «Clássico do Caminho e da potência» — é um conjunto de oitenta e um capítulos breves de verso-prosa ritmada atribuído a Laozi, o «velho mestre», figura que a tradição situa no século VI a.C. e que a investigação moderna tem por lendária; o próprio texto tomou forma, muito provavelmente, no século IV a.C., e as suas testemunhas mais antigas são as tiras de bambu de Guodian, de cerca de 300 a.C. Esta edição traduz o texto recebido de Wang Bi (226–249), a recensão na qual o livro foi lido durante a maior parte da sua história: os capítulos 1–37 formam a metade canônica do «Caminho», os capítulos 38–81 a da «potência». Ao contrário das versões ocidentais mais vendidas, que são paráfrases devidas a autores que não leem chinês, esta tradução é feita diretamente do chinês clássico, com o texto-fonte diante de cada capítulo; onde o original é realmente ambíguo, a ambiguidade fica visível em português ou é nomeada aqui, em vez de ser silenciosamente resolvida na leitura mais bonita.
O livro fala em aforismos densos, equilibrados, muitas vezes paradoxais — antítese, argumento em cadeia, refrão —, e a tradução guarda essa compressão em vez de a distender em explicação. Alguns termos mantêm-se constantes de ponta a ponta: dao 道 é «o Caminho» quando nomeia o absoluto (o capítulo 1 joga a palavra contra os seus sentidos comuns de «caminho» e de «dizer» — um jogo que nenhuma palavra portuguesa carrega); de 德 é «a potência», no sentido da virtude inerente, não do louvor moral; wu-wei 無為 é «o não-agir», paradoxo exato e não conselho de passividade; ziran 自然 é «assim por si mesmo»; pu 樸 é «o bloco não talhado»; wanwu 萬物, «os dez mil seres». O «obscuro» (xuan 玄) dos capítulos 1, 6, 10, 51, 56 e 65 é a obscuridade como profundeza e mistério, não como trevas. Onde o texto é disputado, a tradução segue a lição impressa de Wang Bi: no capítulo 1, a pontuação recebida «constante sem desejo\,\ constante no desejo», embora a linha também possa cortar-se de modo que constantes sejam o «não-ser» e o «ser»; o capítulo 16 lê «inteiro» (全) onde outras recensões leem «rei»; o famoso «o grande vaso tarde se completa» do capítulo 41 aparece nos manuscritos mais antigos como «o grande vaso nunca se acaba». Estas decisões estão registradas, com as suas alternativas, nas notas do tradutor da edição.
O que os capítulos desdobram é uma única demonstração conduzida por vários lados: que o brando sobrevive à violência, que é o vazio que torna uma coisa utilizável, que o lugar baixo é o lugar que comanda, e que governa melhor aquele de quem o povo, feita a obra, pode dizer: «nós somos assim por nós mesmos». Os capítulos políticos têm o olhar tão frio quanto os cosmológicos dão vertigem; a serenidade do livro, tão prezada na paráfrase, convive ali com cães de palha, cavalos de guerra que parem sob as muralhas e execuções. É, depois da Bíblia, o livro mais traduzido do mundo, e o texto fundador tanto do taoísmo filosófico como do taoísmo religioso.
o nome que pode nomear-se não é o nome constante.
Sem nome, é o começo do céu e da terra;
nomeado, é a mãe dos dez mil seres.
Assim: constante sem desejo, contempla a sua sutileza;
constante no desejo, contempla as suas orlas.
Estes dois saem do mesmo e diferem no nome;
juntos, chamam-se obscuros.
Obscuro e ainda obscuro —
a porta de todas as sutilezas.
quando todos conhecem o bom como bom, o não-bom já está aí.
Assim o ser e o não-ser geram-se um ao outro,
o difícil e o fácil completam-se um ao outro,
o longo e o curto medem-se um ao outro,
o alto e o baixo inclinam-se um para o outro,
o som e a voz acordam-se um com o outro,
o antes e o depois seguem-se um ao outro.
Por isso o sábio se atém ao trabalho do não-agir
e pratica o ensino sem palavras.
Os dez mil seres erguem-se, e ele não os recusa;
dá-lhes vida e não os possui,
age e não se vangloria,
a obra feita, nela não se instala.
E justamente porque não se instala,
ela não o deixa.
Não prezes os bens difíceis de obter, e o povo não rouba.
Não mostres o que desperta o desejo, e o coração do povo não se turva.
Assim o governo do sábio:
esvazia-lhes o coração e enche-lhes o ventre,
enfraquece-lhes a vontade e fortalece-lhes os ossos.
Constantemente mantém o povo sem saber e sem desejo,
e faz que os hábeis não ousem agir.
Age sem agir, e nada fica sem ordem.
Um abismo — parece o ancestral dos dez mil seres.
Embota o gume,
desata o emaranhado,
tempera o brilho,
une-se à poeira.
Água funda e quieta — parece mal existir.
Não sei de quem é filho.
Parece anterior ao Senhor.
tratam os dez mil seres como cães de palha.
O sábio não é humano:
trata as cem famílias como cães de palha.
O espaço entre o céu e a terra — não é como um fole de forja?
Vazio, não se esgota;
movido, dá sempre mais.
Muitas palavras depressa se exaurem.
Melhor guardar o meio.
chama-se a fêmea obscura.
A porta da fêmea obscura
chama-se a raiz do céu e da terra.
Contínua, contínua, parece mal existir;
usa dela — nunca se cansa.
Se o céu e a terra podem durar e permanecer,
é porque não vivem para si mesmos:
por isso podem viver longamente.
Por isso o sábio põe o seu corpo atrás, e está à frente;
põe o seu corpo fora, e o corpo permanece.
Não é por não ter interesse próprio
que realiza o seu próprio interesse?
A água beneficia os dez mil seres e não rivaliza;
demora nos lugares que todos desdenham —
por isso está perto do Caminho.
No morar, vale o chão;
no coração, vale o fundo;
no dar, vale a humanidade;
na palavra, vale a confiança;
no governar, vale a ordem;
no servir, vale a capacidade;
no mover-se, vale a hora justa.
E justamente porque não rivaliza,
não tem culpa.
melhor é parar.
Bater e afiar a lâmina:
não se guarda por muito tempo.
Ouro e jade a encher a sala:
ninguém os pode reter.
Riqueza e honra com soberba:
é legar a si mesmo a própria culpa.
A obra feita, a pessoa retira-se:
este é o caminho do céu.
podes não os separar?
Concentrar o sopro até à brandura —
podes ser recém-nascido?
Limpar e polir o espelho obscuro —
podes deixá-lo sem mancha?
Amar o povo e governar o reino —
podes fazê-lo sem saber?
Abrir e fechar as portas do céu —
podes ser a fêmea?
Claro e lúcido até aos quatro confins —
podes não agir?
Dá-lhes vida, cria-os.
Dar vida sem possuir,
agir sem se vangloriar,
conduzir sem mandar:
chama-se a potência obscura.
no seu vazio está o uso do carro.
Molda-se o barro para fazer um vaso:
no seu vazio está o uso do vaso.
Abrem-se portas e janelas para fazer um quarto:
no seu vazio está o uso do quarto.
Assim o ser faz o proveito,
e o não-ser faz o uso.
os cinco sons ensurdecem os seus ouvidos,
os cinco sabores estragam-lhe a boca,
corridas e caçadas enlouquecem-lhe o coração,
os bens difíceis de obter entravam-lhe os passos.
Por isso o sábio é para o ventre, não para os olhos:
deixa aquilo e toma isto.
preza a grande aflição como o próprio corpo.
Que quer dizer: favor e desgraça assustam igual?
O favor rebaixa:
obtê-lo assusta,
perdê-lo assusta —
isso quer dizer: favor e desgraça assustam igual.
Que quer dizer: preza a grande aflição como o próprio corpo?
Se tenho grande aflição,
é porque tenho um corpo;
quando eu não tiver corpo,
que aflição terei?
Assim, a quem preza o corpo como preza o mundo
pode-se confiar o mundo;
a quem ama o corpo como ama o mundo
pode-se entregar o mundo.
Escuta-se e não se ouve: chama-se o inaudível.
Apalpa-se e não se alcança: chama-se o impalpável.
Estes três não se podem esquadrinhar:
confundem-se num só.
Em cima não é claro,
embaixo não é escuro.
Contínuo, sem nome possível,
regressa ao sem-coisa.
Chama-se a forma sem forma,
a figura sem coisa;
chama-se o indistinto, o evasivo.
Vai-lhe ao encontro, e não se vê a sua frente;
segue-o, e não se veem as suas costas.
Empunha o caminho antigo
para reger o que hoje existe.
Poder conhecer o começo antigo:
chama-se o fio do Caminho.
eram sutis, finos, obscuros, penetrantes,
fundos demais para serem conhecidos.
E justamente porque não podem ser conhecidos,
à força lhes faço uma figura:
hesitantes, como quem no inverno atravessa um rio;
cautelosos, como quem teme os quatro vizinhos;
graves, todo compostura;
desfazendo-se, como gelo prestes a derreter;
maciços, como o bloco não talhado;
vastos, como o vale;
turvos, como a água barrenta.
Quem pode, turvo, aquietando-se, clarear devagar?
Quem pode, quieto, movendo-se longamente, nascer devagar?
Quem guarda este Caminho não deseja encher-se.
E justamente porque não se enche,
pode gastar-se sem se fazer novo.
guarda a quietude firme.
Os dez mil seres erguem-se juntos,
e eu contemplo o seu regresso.
Os seres, em multidão,
regressam cada um à sua raiz.
Regressar à raiz chama-se quietude:
isso é regressar ao destino.
Regressar ao destino chama-se o constante;
conhecer o constante chama-se clarividência.
Não conhecer o constante
é agir às cegas, para a desgraça.
Quem conhece o constante acolhe;
quem acolhe é equânime;
equânime, é inteiro;
inteiro, é céu;
céu, é Caminho;
Caminho, é duradouro:
até ao fim do corpo, sem perigo.
Depois dele: amam-no e louvam-no.
Depois: temem-no.
Depois: desprezam-no.
Quando a confiança não basta,
há desconfiança.
Distante, ele pesa as palavras.
A obra feita, os negócios concluídos,
as cem famílias dizem todas:
nós somos assim por nós mesmos.
aparecem a humanidade e a justiça;
quando saem a sabedoria e o engenho,
aparece a grande impostura;
quando os seis parentes não se concertam,
aparecem a piedade filial e o amor dos pais;
quando o reino se turva e desordena,
aparecem os ministros leais.
e o povo lucrará cem vezes;
corta a humanidade, rejeita a justiça,
e o povo voltará à piedade e ao amor;
corta a destreza, rejeita o lucro,
e não haverá ladrões nem salteadores.
Estas três frases, como adorno, não bastam;
por isso, que haja a que ater-se:
mostra a seda crua, abraça o bloco não talhado,
diminui o interesse próprio, reduz os desejos.
Entre o sim e o pois-sim, quanta distância vai?
Entre o bom e o mau, que distância vai?
O que os homens temem
não se pode não temer.
Ermo — e ainda sem fim!
Todos estão em festa,
como no grande sacrifício de bois,
como subindo aos terraços na primavera.
Só eu estou quedo, sem dar sinal,
como o recém-nascido que ainda não sorriu;
lasso, como quem não tem para onde voltar.
Todos têm de sobra,
só eu pareço ter perdido.
Coração de tolo, o meu!
Confuso, confuso!
As pessoas comuns são luzidias,
só eu sou escuro.
As pessoas comuns são perspicazes,
só eu sou fechado.
Calmo, como o mar;
ao vento, como quem não para.
Todos têm o seu préstimo,
só eu sou teimoso e rude.
Só eu sou diferente dos homens:
prezo a mãe que alimenta.
segue só o Caminho.
O Caminho, como coisa,
é só evasivo, só indistinto.
Indistinto, evasivo —
dentro dele há figuras;
evasivo, indistinto —
dentro dele há coisas.
Fundo, sombrio —
dentro dele há essência;
essa essência é bem verdadeira:
dentro dela há confiança.
De hoje até à antiguidade,
o seu nome não passa,
e por ele se contempla o pai de todas as coisas.
Como sei eu a feição do pai de todas as coisas?
Por isto.
torto, então direito;
côncavo, então cheio;
gasto, então novo;
pouco, então se ganha;
demais, então se erra.
Por isso o sábio abraça o Um
e é modelo para o mundo.
Não se exibe, por isso é claro;
não se afirma, por isso brilha;
não se gaba, por isso tem mérito;
não se vangloria, por isso dura.
E justamente porque não rivaliza,
ninguém no mundo pode rivalizar com ele.
"Curvado, então inteiro", diziam os antigos —
seriam palavras vãs?
Inteiro de verdade, a ele se regressa.
Um vento de rajada não dura uma manhã,
uma chuva brusca não dura um dia.
Quem os faz? O céu e a terra.
Se nem o céu e a terra podem durar,
quanto menos o homem!
Por isso, quem serve o Caminho
iguala-se ao Caminho;
quem serve a potência
iguala-se à potência;
quem serve a perda
iguala-se à perda.
A quem se iguala ao Caminho,
o Caminho de bom grado o acolhe;
a quem se iguala à potência,
a potência de bom grado o acolhe;
a quem se iguala à perda,
a perda de bom grado o acolhe.
Quando a confiança não basta,
há desconfiança.
quem alarga o passo não caminha.
Quem se exibe não é claro;
quem se afirma não brilha;
quem se gaba não tem mérito;
quem se vangloria não dura.
No Caminho, isso se chama
resto de comida, excrescência no andar.
Há seres que o detestam;
por isso quem tem o Caminho aí não se demora.
nascida antes do céu e da terra.
Silenciosa, vazia,
está só e não muda,
gira em volta e não se esgota:
pode ser a mãe do mundo.
Não sei o seu nome;
dou-lhe o apelido de Caminho;
forçado a nomeá-la, chamo-a grande.
Grande quer dizer que vai;
ir quer dizer longe;
longe quer dizer que volta.
Assim o Caminho é grande,
o céu é grande,
a terra é grande,
o rei também é grande.
No domínio há quatro grandezas,
e o rei é uma delas.
O homem toma a medida da terra,
a terra toma a medida do céu,
o céu toma a medida do Caminho,
o Caminho toma a medida do assim por si mesmo.
o quieto é senhor do inquieto.
Por isso o sábio viaja o dia inteiro
sem se apartar da bagagem.
Ainda que haja vistas gloriosas,
fica sereno, acima delas.
Como pode o senhor de dez mil carros
tratar o próprio corpo mais leve que o mundo?
Leve, perde a raiz;
inquieto, perde o senhorio.
boa palavra não deixa falha que apontar;
boa conta não usa fichas nem tábuas;
boa porta fecha sem tranca, e não se pode abrir;
bom nó ata sem corda, e não se pode desatar.
Por isso o sábio é sempre bom em salvar os homens,
e nenhum homem é posto fora;
é sempre bom em salvar as coisas,
e nenhuma coisa é posta fora:
chama-se vestir a clarividência.
Assim o homem bom é mestre do que não é bom,
e o que não é bom é matéria do bom.
Não prezar o seu mestre,
não amar a sua matéria:
mesmo sabendo muito, é grande cegueira.
Chama-se o essencial e sutil.
guarda o seu feminino:
sê a ravina do mundo.
Sendo a ravina do mundo,
a potência constante não te deixa:
regressa ao recém-nascido.
Conhece o seu branco,
guarda o seu negro:
sê o modelo do mundo.
Sendo o modelo do mundo,
a potência constante não falha:
regressa ao sem-limite.
Conhece a sua glória,
guarda a sua desonra:
sê o vale do mundo.
Sendo o vale do mundo,
a potência constante basta:
regressa ao bloco não talhado.
O bloco, cortado, vira utensílios;
o sábio, usando-o, vira chefe dos oficiais.
Por isso o grande talho não corta.
vejo que não se consegue.
O mundo é vaso de espírito:
não se pode agir sobre ele.
Quem age, estraga-o;
quem agarra, perde-o.
Pois os seres ora vão à frente, ora seguem;
ora sopram brando, ora sopram forte;
ora são fortes, ora fracos;
ora se erguem, ora caem.
Por isso o sábio deixa o excesso,
deixa o luxo,
deixa a soberba.
não força o mundo pelas armas:
tais coisas costumam voltar-se.
Onde acampam exércitos, nascem espinheiros;
depois das grandes tropas vêm, por certo, anos de fome.
O bom alcança o fruto, e basta;
não ousa tomar pela força.
Alcança o fruto e não se vangloria,
alcança o fruto e não se gaba,
alcança o fruto e não se ensoberbece,
alcança o fruto porque não tem remédio,
alcança o fruto e não força.
Os seres no auge envelhecem:
chama-se contra o Caminho.
O que é contra o Caminho cedo acaba.
há seres que as detestam;
por isso quem tem o Caminho com elas não fica.
O homem nobre, em casa, honra a esquerda;
na guerra, honra a direita.
As armas são instrumentos de mau agouro,
não instrumentos do homem nobre;
usa-as quando não tem remédio,
e o melhor é a frieza serena.
Vence e não acha belo;
quem acha belo
alegra-se em matar homens.
E quem se alegra em matar homens
não pode realizar a sua vontade no mundo.
Nas obras faustas honra-se a esquerda,
nas funestas honra-se a direita.
O general segundo fica à esquerda,
o general supremo fica à direita:
quer dizer que se está num rito fúnebre.
Mortos os homens em multidão,
chora-os com dor e pena;
vencida a batalha,
trata-a como um rito fúnebre.
O bloco não talhado é pequeno,
mas ninguém no mundo pode fazê-lo servo.
Se príncipes e reis pudessem guardá-lo,
os dez mil seres viriam por si, como hóspedes.
O céu e a terra unir-se-iam
para fazer descer doce orvalho,
e o povo, sem que ninguém mande, por si se igualaria.
Começado o corte, há nomes;
havendo já nomes,
há que saber parar;
saber parar é não perigar.
O Caminho está para o mundo
como as torrentes dos vales para o grande rio e o mar.
quem se conhece é clarividente.
Quem vence os homens tem força;
quem se vence é forte.
Quem sabe bastar-se é rico.
Quem persiste à força tem vontade.
Quem não perde o seu lugar dura.
Quem morre e não perece, esse vive longamente.
pode ir à esquerda e à direita.
Os dez mil seres apoiam-se nele para nascer,
e ele não os recusa;
a obra feita, não a toma em nome próprio.
Veste e nutre os dez mil seres
e não se faz seu dono;
constante sem desejo,
pode chamar-se pequeno;
os dez mil seres regressam a ele,
e ele não se faz seu dono:
pode chamar-se grande.
E porque até ao fim não se faz grande,
pode realizar a sua grandeza.
e o mundo acorre.
Acorre e não sofre dano:
paz, calma, largueza.
Música e iguarias
detêm o viandante que passa;
o Caminho, ao sair da boca,
é insípido, sem sabor.
Olha-se: não basta para ver;
escuta-se: não basta para ouvir;
usa-se: não se pode esgotar.
há de primeiro estender-se;
o que se quer enfraquecer
há de primeiro fortalecer-se;
o que se quer derrubar
há de primeiro erguer-se;
a quem se quer tomar
há de primeiro dar-se.
Chama-se a clarividência sutil.
O brando e o fraco vencem o duro e o forte.
O peixe não pode sair do fundo;
os instrumentos afiados do reino
não se podem mostrar aos homens.
e nada fica por fazer.
Se príncipes e reis pudessem guardá-lo,
os dez mil seres por si se transformariam.
Transformados, se o desejo se erguesse,
eu os aquietaria
com o bloco sem nome.
O bloco sem nome —
também ele levaria ao sem-desejo.
Sem desejo, na quietude,
o mundo por si se firmaria.
A potência mais baixa não larga a potência: por isso não tem potência.
A potência mais alta não age, e nada tem por quê;
a potência mais baixa age, e tem o seu porquê.
A humanidade mais alta age, e nada tem por quê;
a justiça mais alta age, e tem o seu porquê.
O rito mais alto age e, como ninguém responde,
arregaça o braço e arrasta.
Por isso, perdido o Caminho, vem a potência;
perdida a potência, vem a humanidade;
perdida a humanidade, vem a justiça;
perdida a justiça, vem o rito.
O rito é a casca fina da lealdade e da confiança,
e o começo da desordem.
O saber de antemão é a flor do Caminho,
e o começo da tolice.
Por isso o homem feito fica no espesso,
não no fino;
fica no fruto,
não na flor.
Deixa aquilo e toma isto.
o céu alcançou o Um e ficou claro;
a terra alcançou o Um e ficou tranquila;
os espíritos alcançaram o Um e ficaram numinosos;
os vales alcançaram o Um e ficaram cheios;
os dez mil seres alcançaram o Um e nasceram;
príncipes e reis alcançaram o Um e foram o prumo do mundo.
Levado ao extremo:
sem o que o faz claro, o céu racharia;
sem o que a faz tranquila, a terra cederia;
sem o que os faz numinosos, os espíritos se apagariam;
sem o que os enche, os vales secariam;
sem o que os faz nascer, os dez mil seres se extinguiriam;
sem o que os faz nobres e altos, príncipes e reis tombariam.
Assim o nobre tem por raiz o humilde,
e o alto tem por base o baixo.
Por isso príncipes e reis chamam a si mesmos
"órfão", "desamparado", "sem préstimo".
Não é tomar o humilde por raiz? Não é?
Conta as partes de um carro: não há carro.
Não queiras tilintar como o jade
nem retinir como a pedra.
a fraqueza é o uso do Caminho.
Os dez mil seres do mundo nascem do ser;
o ser nasce do não-ser.
e pratica-o com zelo;
o homem mediano ouve o Caminho:
ora o guarda, ora o perde;
o homem inferior ouve o Caminho
e ri às gargalhadas.
Se não risse, não seria o Caminho.
Por isso dizem as palavras assentadas:
o caminho claro parece escuro,
o caminho que avança parece recuar,
o caminho plano parece áspero,
a potência alta parece um vale,
o branco extremo parece manchado,
a potência vasta parece faltar,
a potência firme parece furtiva,
o verdadeiro maciço parece mudável,
o grande quadrado não tem cantos,
o grande vaso tarde se completa,
o grande som mal se ouve,
a grande figura não tem forma.
O Caminho esconde-se e não tem nome;
mas só o Caminho é bom em dar e em completar.
o um gera o dois,
o dois gera o três,
o três gera os dez mil seres.
Os dez mil seres carregam o yin e abraçam o yang,
e o sopro do vazio os põe em harmonia.
O que os homens detestam
é ser "órfão", "desamparado", "sem préstimo" —
e é assim que reis e duques se nomeiam.
Pois as coisas ora perdem e nisso ganham,
ora ganham e nisso perdem.
O que os homens ensinam,
eu também ensino:
"o violento não alcança a sua morte" —
disso faço o pai do meu ensino.
galopa sobre o mais duro do mundo;
o que não tem ser
penetra onde não há fresta.
Por isso sei o proveito do não-agir.
O ensino sem palavras, o proveito do não-agir:
pouca coisa no mundo chega a tanto.
O corpo ou os bens: qual vale mais?
Ganhar ou perder: qual faz mais mal?
Por isso amar demais custa caro,
e juntar demais perde grosso.
Quem sabe bastar-se não se desonra;
quem sabe parar não periga:
pode durar longamente.
o seu uso não se estraga.
A grande plenitude parece vazia:
o seu uso não se esgota.
A grande retidão parece torta,
a grande destreza parece inábil,
a grande eloquência parece gaguejar.
O movimento vence o frio,
a quietude vence o calor:
o claro e quieto é o prumo do mundo.
os cavalos de corrida puxam estrume;
quando o mundo não tem o Caminho,
os cavalos de guerra parem nos arrabaldes.
Não há desgraça maior que não saber bastar-se,
nem culpa maior que querer obter.
Por isso a suficiência de quem sabe bastar-se
é suficiência constante.
conhecer o mundo;
sem espreitar pela janela,
ver o caminho do céu.
Quanto mais longe se vai,
menos se conhece.
Por isso o sábio
conhece sem andar,
nomeia sem ver,
completa sem agir.
no Caminho, cada dia se diminui.
Diminui, e diminui ainda,
até chegar ao não-agir:
não age, e nada fica por fazer.
Toma-se o mundo estando sempre sem negócios;
quando se têm negócios,
já não se basta para tomar o mundo.
faz seu o coração das cem famílias.
Os bons, trato-os como bons;
os não bons, também os trato como bons:
assim se ganha a bondade.
Os confiáveis, confio neles;
os não confiáveis, também confio neles:
assim se ganha a confiança.
O sábio, no mundo, retrai-se,
e para o mundo turva o próprio coração.
As cem famílias fixam nele os olhos e os ouvidos,
e o sábio trata-os a todos como crianças.
Os companheiros da vida são três em dez;
os companheiros da morte, três em dez;
e os homens que, vivendo,
se movem para o chão da morte,
também três em dez.
Por que razão?
Porque vivem a vida com espessura demais.
Pois ouvi dizer: quem é bom em guardar a vida
anda por terra e não topa rinoceronte nem tigre,
entra no exército e não veste couraça nem lâmina;
o rinoceronte não acha onde meter o chifre,
o tigre não acha onde pôr a garra,
a arma não acha onde caber o gume.
Por que razão?
Porque nele não há chão de morte.
a potência os cria,
as coisas lhes dão forma,
as circunstâncias os completam.
Por isso, dos dez mil seres,
nenhum deixa de venerar o Caminho e de prezar a potência.
A veneração do Caminho, o prezar da potência:
ninguém o ordena — é constante, assim por si mesmo.
Assim o Caminho os gera, a potência os cria:
fá-los crescer, nutre-os,
firma-os, amadurece-os,
alimenta-os, abriga-os.
Dar vida sem possuir,
agir sem se vangloriar,
conduzir sem mandar:
chama-se a potência obscura.
que é a mãe do mundo.
Alcançada a mãe,
conhecem-se os filhos;
conhecidos os filhos,
volta-se a guardar a mãe:
até ao fim do corpo, sem perigo.
Tapa as aberturas,
fecha as portas:
até ao fim da vida não te cansas.
Abre as aberturas,
acrescenta os negócios:
até ao fim da vida não tens salvação.
Ver o pequeno chama-se clarividência;
guardar o brando chama-se força.
Usa a luz,
regressa à clarividência,
não legues desgraça ao corpo:
isso é vestir o constante.
andaria no grande Caminho,
e só temeria desviar-me.
O grande Caminho é bem plano,
mas o povo gosta dos atalhos.
A corte está bem varrida,
os campos bem ervados,
os celeiros bem vazios;
vestes bordadas,
espadas afiadas à cinta,
fartura de comida e bebida,
bens e riquezas de sobra:
a isso se chama ostentação de ladrão.
Não é o Caminho!
o que é bem abraçado não escapa:
filhos e netos não cessarão os sacrifícios.
Cultivada no corpo,
a potência é verdadeira;
cultivada na casa,
a potência sobra;
cultivada na aldeia,
a potência cresce;
cultivada no reino,
a potência é farta;
cultivada no mundo,
a potência é universal.
Por isso, pelo corpo vê o corpo,
pela casa vê a casa,
pela aldeia vê a aldeia,
pelo reino vê o reino,
pelo mundo vê o mundo.
Como sei eu que o mundo é assim?
Por isto.
compara-se ao recém-nascido:
vespas, escorpiões e serpentes não o picam,
as feras não o agarram,
as aves de rapina não o atacam.
Ossos fracos, tendões brandos — e aperta firme.
Ainda não sabe da união da fêmea e do macho,
e inteiro se ergue:
é o ápice da essência.
Grita o dia inteiro e não enrouquece:
é o ápice da harmonia.
Conhecer a harmonia chama-se o constante;
conhecer o constante chama-se clarividência.
Acrescentar à vida chama-se agouro;
o coração mandar no sopro chama-se forçar.
Os seres no auge envelhecem:
chama-se contra o Caminho.
O que é contra o Caminho cedo acaba.
quem fala não sabe.
Tapa as aberturas,
fecha as portas,
embota o gume,
desata o emaranhado,
tempera o brilho,
une-te à poeira:
chama-se a identidade obscura.
Por isso não se pode tê-lo por íntimo,
nem se pode tê-lo por estranho;
não se pode beneficiá-lo,
nem se pode feri-lo;
não se pode enobrecê-lo,
nem se pode aviltá-lo.
Por isso é o mais nobre do mundo.
com a surpresa usam-se as armas,
com o sem-negócios toma-se o mundo.
Como sei eu que é assim?
Por isto:
quanto mais proibições e tabus no mundo,
mais pobre o povo;
quanto mais armas afiadas tem o povo,
mais se turva o reino;
quanto mais destreza e engenho têm os homens,
mais coisas estranhas aparecem;
quanto mais se proclamam leis e decretos,
mais ladrões e salteadores há.
Por isso diz o sábio:
eu não ajo, e o povo por si se transforma;
eu amo a quietude, e o povo por si se endireita;
eu não tenho negócios, e o povo por si enriquece;
eu não tenho desejos, e o povo por si é o bloco não talhado.
povo simples, singelo.
Governo perspicaz, esquadrinhador:
povo falho, partido.
A desgraça: nela se apoia a fortuna;
a fortuna: nela se agacha a desgraça.
Quem conhece o seu termo?
Não há retidão fixa:
o reto volta a ser surpresa,
o bom volta a ser agouro.
A cegueira dos homens —
há quanto tempo já dura!
Por isso o sábio é quadrado sem cortar,
anguloso sem ferir,
direito sem se esticar,
luminoso sem ofuscar.
nada como a parcimônia.
Só a parcimônia é submeter-se cedo;
submeter-se cedo é acumular potência em dobro;
quem acumula potência em dobro, tudo vence;
quem tudo vence, ninguém lhe conhece o termo;
quem não tem termo conhecido
pode ter o reino;
quem tem a mãe do reino
pode durar longamente:
chama-se raiz funda, cepa firme —
o caminho da vida longa e do olhar duradouro.
é como cozinhar um peixe pequeno.
Quando se rege o mundo pelo Caminho,
os espectros não fazem prodígios;
não que os espectros não façam prodígios:
os seus prodígios não ferem os homens;
não que os prodígios não firam os homens:
o sábio também não fere os homens.
E como os dois não se ferem,
as potências confluem e regressam.
o ponto onde o mundo se cruza,
a fêmea do mundo.
A fêmea vence sempre o macho pela quietude;
pela quietude, ela se põe embaixo.
Assim o grande reino, pondo-se abaixo do pequeno,
toma o pequeno reino;
e o pequeno reino, pondo-se abaixo do grande,
toma o grande reino.
Um abaixa-se para tomar;
o outro, abaixado, toma.
O grande reino não quer mais
que juntar e criar os homens;
o pequeno reino não quer mais
que entrar e servir os homens.
Para que os dois tenham o que querem,
ao grande é que cabe pôr-se embaixo.
tesouro do homem bom,
amparo do homem que não é bom.
Belas palavras podem comprar honra;
bela conduta pode pôr um homem acima dos outros.
Os homens que não são bons —
por que os rejeitar?
Por isso, ao entronizar o Filho do Céu
e instalar os três duques,
antes que oferecer discos de jade à frente de quadrigas,
melhor é, sentado, avançar este Caminho.
Por que prezavam os antigos este Caminho?
Não diziam: por ele se acha o que se busca,
por ele escapa o culpado?
Por isso é o mais nobre do mundo.
trabalha o sem-negócios,
saboreia o sem-sabor.
Faz grande o pequeno, e muito o pouco;
retribui o rancor com virtude.
Planeia o difícil no seu fácil,
faz o grande no seu miúdo:
as coisas difíceis do mundo
começam sempre fáceis,
as coisas grandes do mundo
começam sempre miúdas.
Por isso o sábio nunca faz o grande —
e assim pode completar a sua grandeza.
Promessa leviana, pouca confiança;
muito fácil, muito difícil.
Por isso o sábio ainda acha tudo difícil —
e assim nada, no fim, lhe é difícil.
o que não deu sinal é fácil de prevenir;
o frágil é fácil de quebrar;
o miúdo é fácil de dispersar.
Faz antes que exista;
ordena antes que desordene.
A árvore que enche os braços
nasce de um broto fino;
a torre de nove andares
ergue-se de um cesto de terra;
a viagem de mil li
começa debaixo dos pés.
Quem age, estraga;
quem agarra, perde.
Por isso o sábio não age, e não estraga;
não agarra, e não perde.
O povo, nos seus negócios,
estraga sempre à beira de acabar.
Cuida do fim como do começo,
e não haverá obra estragada.
Por isso o sábio deseja não desejar
e não preza os bens difíceis de obter;
aprende a não aprender
e regressa por onde todos passaram de largo.
Ajuda os dez mil seres a serem assim por si mesmos —
e não ousa agir.
não esclareciam o povo:
queriam-no simples.
Se o povo é difícil de governar,
é porque sabe demais.
Assim, governar o reino pelo saber
é a ruína do reino;
não governar o reino pelo saber
é a fortuna do reino.
Conhecer estes dois é também o padrão;
conhecer sempre o padrão
chama-se a potência obscura.
A potência obscura é funda, é longínqua;
com as coisas, ela regressa —
e só então se chega à grande concórdia.
é porque sabem pôr-se abaixo delas:
por isso podem ser reis das cem torrentes.
Assim, quem quer estar acima do povo
há de pôr-se abaixo nas palavras;
quem quer estar à frente do povo
há de pôr o seu corpo atrás.
Por isso o sábio está em cima,
e o povo não sente o peso;
está à frente,
e o povo não sofre dano.
Por isso o mundo o empurra para a frente com alegria
e não se cansa dele.
E porque não rivaliza,
ninguém no mundo pode rivalizar com ele.
mas que parece não se assemelhar a nada.
Justamente porque é grande,
parece não se assemelhar;
se se assemelhasse,
há muito que seria pequeno!
Tenho três tesouros,
que guardo e protejo:
o primeiro é a compaixão,
o segundo é a parcimônia,
o terceiro é não ousar ser o primeiro do mundo.
Compassivo, posso ser valente;
parco, posso ser largo;
não ousando ser o primeiro do mundo,
posso ser chefe dos vasos feitos.
Hoje, deixar a compaixão e querer a valentia,
deixar a parcimônia e querer a largueza,
deixar o atrás e querer a frente —
é a morte!
Pois a compaixão, na guerra, vence;
na defesa, é firme.
Quem o céu quer salvar,
com a compaixão o guarda.
o bom combatente não se encoleriza;
o bom vencedor não trava combate;
quem é bom em usar os homens põe-se abaixo deles.
Chama-se a potência de não rivalizar,
chama-se usar a força dos homens,
chama-se emparelhar com o céu — o ápice dos antigos.
"Não ouso ser o anfitrião: sou o hóspede;
não ouso avançar uma polegada: recuo um passo."
Chama-se marchar sem marcha,
arregaçar sem braço,
arrastar sem inimigo,
empunhar sem arma.
Não há desgraça maior que menosprezar o inimigo;
menosprezando o inimigo, quase perdi os meus tesouros.
Por isso, quando exércitos iguais se enfrentam,
vence o que sofre.
bem fáceis de praticar;
no mundo ninguém as entende,
ninguém as pratica.
As palavras têm linhagem,
os negócios têm senhor.
E justamente porque não sabem,
é que não me conhecem.
Raros, os que me conhecem;
nobres, os que me tomam por medida.
Por isso o sábio veste burel e leva jade no peito.
não saber, e crer que se sabe: doença.
Só quem adoece da doença,
por isso não adoece.
O sábio não adoece
porque adoece da doença:
por isso não adoece.
o grande terror chega.
Não aperteis a sua morada,
não oprimais o seu viver.
E justamente porque não os oprime,
ele não é detestado.
Por isso o sábio conhece-se e não se exibe,
ama-se e não se enaltece.
Deixa aquilo e toma isto.
a coragem de não ousar deixa viver.
Destes dois, um traz proveito, outro dano.
O que o céu detesta —
quem lhe conhece a razão?
Por isso o sábio ainda o acha difícil.
O caminho do céu:
não rivaliza, e é bom em vencer;
não fala, e é bom em responder;
não é chamado, e vem por si;
folgado, e é bom em traçar.
A rede do céu é vasta:
de malhas largas, e nada perde.
de que serve ameaçá-lo com a morte?
E se eu fizesse o povo temer sempre a morte,
e prendesse e matasse
quem fizesse o estranho —
quem ousaria?
Há sempre o mestre das execuções, que mata.
Matar no lugar do mestre das execuções
é talhar no lugar do grande carpinteiro;
e, dos que talham no lugar do grande carpinteiro,
raro o que não fere a própria mão.
é porque os de cima comem impostos demais:
por isso passa fome.
Se o povo é difícil de governar,
é porque os de cima agem:
por isso é difícil de governar.
Se o povo toma a morte por pouco,
é porque os de cima buscam a vida com espessura demais:
por isso toma a morte por pouco.
Só quem não faz da vida o seu negócio
é mais sábio do que quem preza a vida.
ao morrer, é duro e rígido.
As ervas e as árvores, ao nascer, são tenras e frágeis;
ao morrer, são secas e murchas.
Assim o duro e o rígido são companheiros da morte,
o brando e o fraco são companheiros da vida.
Por isso o exército endurecido não vence,
e a árvore endurecida encontra a lâmina.
O forte e o grande ficam embaixo;
o brando e o fraco ficam em cima.
não é como armar um arco?
O alto, abaixa-o;
o baixo, ergue-o;
o que sobra, tira-o;
o que falta, completa-o.
O caminho do céu
tira de onde sobra e completa onde falta.
O caminho dos homens não é assim:
tira de onde falta para ofertar onde sobra.
Quem pode ter de sobra para ofertar ao mundo?
Só quem tem o Caminho.
Por isso o sábio age e não se vangloria,
a obra feita, nela não se demora:
não quer mostrar-se melhor.
e, para atacar o duro e o forte,
nada pode vencê-la:
nada há que a substitua.
O fraco vence o forte,
o brando vence o duro:
no mundo ninguém o ignora,
ninguém o pratica.
Por isso diz o sábio:
quem recebe a sujeira do reino
chama-se senhor dos altares da terra e do grão;
quem recebe os males do reino
chama-se rei do mundo.
As palavras retas parecem ditas ao contrário.
sempre sobra rancor:
como pode valer por bem?
Por isso o sábio guarda a metade esquerda da talha
e nada exige dos homens.
Quem tem potência cuida da talha;
quem não tem potência cuida da cobrança.
O caminho do céu não tem favoritos:
está constantemente com o homem bom.
Faze que haja utensílios de dez e de cem homens,
e que não se usem;
faze que o povo pese a morte
e não vague para longe.
Ainda que haja barcos e carros,
ninguém os monte;
ainda que haja couraças e armas,
ninguém as alinhe.
Faze que os homens voltem a atar nós nas cordas
e deles se sirvam.
Doce, a sua comida;
belo, o seu vestido;
sossegada, a sua morada;
alegre, o seu costume.
Os reinos vizinhos avistam-se,
ouvem-se os galos e os cães de um e de outro —
e o povo chega à velhice e à morte
sem nunca se ter visitado.
as palavras belas não são confiáveis.
O bom não argumenta;
o que argumenta não é bom.
Quem sabe não é erudito;
o erudito não sabe.
O sábio não acumula:
quanto mais faz pelos outros, mais tem;
quanto mais dá aos outros, mais possui.
O caminho do céu
beneficia e não fere;
o caminho do sábio
age e não rivaliza.